HIPOCALCEMIA PUERPERAL

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As doenças metabólicas, ou também chamadas doenças da produção, apresentam alta incidência entre os animais pecuários, sendo especialmente importantes nas vacas de leite (Radostists et al., 2007). Estas doenças ocorrem predominantemente após o parto e se estendem até o pico de lactação, sendo esta suscetibilidade aparentemente relacionada à movimentação extremamente alta de líquidos, sais e substâncias orgânicas solúveis, principalmente durante o período inicial de lactação. Dentre essas substâncias podem-se citar os macrominerais.

Durante o período de lactação, especialmente em vacas de alta produção, ocorre inevitavelmente uma instabilidade metabólica, que quando associada a fatores como estresse e desequilíbrios nutricionais, podem levar a intensa depleção das reservas dos nutrientes e acarretar no aparecimento das doenças metabólicas, como por exemplo, a Hipocalcemia Puerperal.

Em geral, os vertebrados mantêm a homeostase de cálcio com grande precisão, sendo esta dependente de um balanço complexo envolvendo a absorção, a secreção e a reciclagem deste nutriente. O cálcio é fornecido aos animais através da dieta, enquanto as perdas deste elemento ocorrem de diferentes maneiras, como, por exemplo, pelas fezes, pela urina, além de perdas para a formação do feto e para a produção de leite. Já a reciclagem pode ocorrer através da reabsorção óssea ou ainda por conservação renal (Goff, 2000; Radotists et al., 2007).

A hipocalcemia puerperal (HP) ou febre do leite ocorre quando o animal apresenta grande perda de cálcio de forma aguda associada a falhas nos mecanismos responsáveis por manter a homeostase deste mineral, fato comum no período pós-parto onde ocorre súbita transferência de cálcio para o colostro. Vacas com hipocalcemia podem apresentar uma disfunção neuromuscular progressiva, com paralisia flácida, colapso circulatório e depressão, podendo ainda levar o animal ao choque e finalmente à morte. A forma clássica da doença ocorre em vacas de alta produção, geralmente dentro de 24 a 72 horas pós-parto (Goff, 2000).

A hipocalcemia puerperal é causa importante de perdas econômicas na exploração leiteira, pois além dos custos com o tratamento e das perdas diretas devido à mortalidade, existem ainda as complicações secundárias, como a redução da produção de leite, a perda de peso e a redução da vida útil do animal. As vacas que se recuperam da hipocalcemia puerperal apresentam ainda maior propensão a outras doenças após o parto, tais como metrite, retenção de placenta, deslocamento de abomaso, cetose entre outras (Ortolani, 1995). Desta maneira, se torna imprescindível conhecer tanto os fatores predisponentes quanto a forma de prevenção da doença.

Dentre os fatores que podem interferir na homeostase do cálcio no período periparto, podem-se citar como mais comuns: a idade da vaca, a suscetibilidade racial, a quantidade de cálcio na alimentação de vacas secas, a diferença cátion-aniônica da dieta, e a interação entre o cálcio e os outros macrominerais presentes na dieta, como por exemplo, o fósforo (P), o potássio (K) e o magnésio (Mg) (Ortolani, 1995; Goff, 2000; Oetzel, 2000).

Vacas mais velhas apresentam menor capacidade de reabsorção óssea e de absorção intestinal de cálcio. Além disso, quanto mais velha for a vaca menor será seu apetite no pós-parto o que reduz a quantidade de cálcio ingerido. Com relação à susceptibilidade racial, tem-se observado que a incidência de hipocalcemia puerperal é maior em vacas da raça Jersey do que nas vacas da raça Holandesa, e a explicação absoluta para isso permanece incerta. A quantidade de cálcio na dieta pré-parto também pode influenciar na incidência de hipocalcemia puerperal (Goff, 2000; Oetzel, 2000). O fornecimento diário de mais do que 100 g de cálcio durante o período seco está associado ao aumento da incidência da doença. Em contraste, uma dieta pré-parto com baixa concentração de cálcio reduz os riscos do aparecimento da doença, pois, neste caso, ocorre a ativação dos mecanismos relacionados com a homeostase deste mineral antes do parto, permitindo ao animal adaptar-se mais rapidamente à drenagem de cálcio na lactação. A partir destas informações postulou-se como ideal a redução da oferta de cálcio no pré-parto para o nível de 25 a 30g/vaca/dia (Corbellini, 1998). Atualmente sabe-se que este método além de pouco prático, não é tão eficaz quanto se acreditava, sendo a alta diferença entre cátions e aniôns da dieta mais significativa no desencadeamento da hipocalcemia puerperal que os altos níveis de cálcio dietético no pré-parto (Oetzel, 2000).

A diferença entre cátions e aniôns da dieta (DCAD) é determinada pelo balanço entre os cátions fixos totais (biodisponíveis e não metabolizáveis) e os ânions fixos totais presentes na dieta.

Dietas aniônicas diminuem a incidência de hipocalcemia puerperal quando ingeridas no período que antecede o parto, já as dietas catiônicas, por outro lado, aumentam a tendência das vacas desenvolverem esta patologia.

Dietas com diferença entre cátions e aniôns negativas (valores entre -30 a -100 e não superior a -200 mEq/kg de Ms) nas últimas 4 a 6 semanas de gestação são consideradas ideais para a prevenção tanto da hipocalcemia clínica quanto da subclínica (Oetzel, 2000; Carvalho, 2005). Essas dietas também auxiliam na redução da incidência de edema de úbere, além de proporcionarem aumento na produção de leite da ordem de 3 a 8%.

Dietas pré-parto ricas em fósforo (>80g de P/dia) também aumentam tanto a incidência como a gravidade da hipocalcemia. Além dos fatores já citados, deve-se ainda levar em consideração a interação entre a homeostase do cálcio e outras deficiências minerais como a hipomagnesemia.

Uma vez conhecidos os prejuízos que a hipocalcemia puerperal gera e entendendo os principais fatores predisponentes envolvidos na etiologia da doença é responsabilidade dos profissionais inseridos na bovinocultura de leite, concentrar esforços para a prevenção desta enfermidade, com enfoque principalmente no manejo pré-parto.

       Hipocalcemia puerperal como causa importante de perdas econômicas na exploração leiteira

Referências bibliográficas

CARVALHO, F. A. N.; BARBOSA, F. A.; McDOWELL, L. R. Nutrição de bovinos a pasto. 2.ed. Belo Horizonte: Gradual, 2005. 428p.

GOFF, J. P. Pathophysiology of Calcium and Phosphorus Disorders. The Veterinary Clinics of North America:  Food Animal Practice v.16, n.2, p.319-337, 2000.

OETZEL, G. R. Management of Dry Cows for the Prevention of Milk Fever and Other Mineral Disorders. The Veterinary Clinics of North America:  Food Animal Practice v.16, n.2, p.369-386, 2000.

ORTOLANI, E. L.; Hipocalcemia da Vaca Parturiente. CadernosTécnicos daEscoladeVeterináriadaUFMG. n.14, p.59-71, 1995b.

RADOSTITS, O. M.; GAY, C. C.; HINCHCLIFF, K. W.; CONSTABLE, P. D. Veterinary Medicine – A textbook of the diseases of catle, horses, sheep, pigs and goats. 10. ed. Philadelphia: Saunders Elsevier, 2007. 2156 p

Dra. Mariana Marcantonio Coneglian | Professora da Universidade Estadual do Centro-Oeste e Fundadora do Portal Universo Equino.

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