Produção de fosfato bicálcico para nutrição animal: como o enxofre impacta no custo?

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O fosfato bicálcico ou DCP (dicalcium phosphate) se destaca como uma das principais fontes de fósforo e cálcio na nutrição animal devido à sua elevada biodisponibilidade e previsibilidade nutricional nas formulações.

Em produtos amplamente utilizados na pecuária de corte, como o suplemento mineral 80 (80 g/kg ou 8% de fósforo), o fosfato tem grande peso nutricional e econômico. Representando cerca de 42% da composição e entre 70% e 85% do custo, é o principal fator que influencia o preço final do suplemento.

A formação do preço do DCP, depende de uma combinação de variáveis, destacando-se:

  • Preço do enxofre (via ácido sulfúrico);
  • Custo da rocha fosfática (matéria-prima primária);
  • Taxa de câmbio (dólar), devido à forte indexação internacional do mercado.

Entender como esses fatores impactam a pecuária é fundamental pois permite uma análise mais robusta para melhores decisões de compra e maior eficiência produtiva.

O enxofre se destaca como um insumo-chave na produção e, sendo fortemente influenciado pelas dinâmicas do mercado internacional será o foco do texto de hoje sobre a formação de custos dos fosfatos feed grade.

Como funcionam as rotas de produção de fosfatos para nutrição animal?

O fosfato pode ser obtido por diferentes rotas químicas, que variam de acordo com as matérias-primas disponíveis, condições operacionais e requisitos de qualidade do produto.

A rota mais tradicional e amplamente empregada é a que envolve a transformação da rocha fosfática em ácido fosfórico e posterior neutralização com uma fonte de cálcio, geralmente calcário ou cal (Cal Hidratada / Cal Virgem).

A rota ácido fosfórico + cal trata-se de uma reação fortemente exotérmica, que pode ser representada de forma simplificada por Ca(OH)2 + H3PO4→CaHPO4 + 2H2O.

Na rota calcário, de um modo geral, a reação não é completa e gera uma fração bicálcica e uma fração monocálcica. Também ocorre a liberação de dióxido de carbono e água, conforme a reação simplificada CaCO3 + H3PO4 → CaHPO4 + Ca(H2PO4)2 + CO2 + H2O.

Qual é o papel do enxofre na produção do ácido fosfórico feed grade?

Embora o enxofre não esteja presente na composição final do fosfato bicálcico, ele é peça-chave no processo produtivo pois dele se obtém o ácido sulfúrico indispensável para converter o fósforo da rocha fosfática em uma forma solúvel.

processo de produção do enxofre da Mosaic

Figura 1: Fluxograma do processo de produção dos fosfatos feed grade Mosaic

Etapas do processo

I. Mineração e beneficiamento da rocha fosfática: A rocha é extraída e passa por etapas de britagem e moagem para redução de tamanho.

II. Concentração por flotação: Processo físico-químico que separa o concentrado fosfático do calcário e das impurezas (magnetita, sílica, etc.), aumentando o teor de P₂O₅.

III. Produção de ácido sulfúrico: O enxofre é fundido e queimado na presença de oxigênio para formar dióxido de enxofre (SO₂), que posteriormente é oxidado a trióxido de enxofre (SO₃) em reatores catalíticos. Esse composto é então absorvido e convertido em ácido sulfúrico (H₂SO₄).

IV. Produção de ácido fosfórico: O concentrado fosfático reage com ácido sulfúrico, gerando ácido fosfórico (H₃PO₄) e sulfato de cálcio (gesso) como subproduto.

V. Purificação do ácido fosfórico: Consiste na remoção de impurezas, especialmente fluor, para obtenção do ácido “feed grade”.

VI. Neutralização com fonte de cálcio: O ácido fosfórico purificado reage com calcário (CaCO₃) ou cal hidratada (Ca (OH)₂), formando o fosfato bicálcico.

VII. Secagem, granulação e moagem: O produto é seco e processado na granulometria desejada, garantindo fluidez e qualidade para aplicação em rações.

Mas afinal, de onde vem o enxofre?

O enxofre pode ser obtido a partir de depósitos minerais naturais, minerais sulfurados e também de correntes gasosas industriais e metalúrgicas.

Atualmente, o maior volume de enxofre é proveniente da recuperação do refino de petróleo e do processamento de gás natural. Assim, reduções no refino ou mudanças no perfil energético como transição para fontes renováveis ou conflitos internacionais, impactam a disponibilidade do insumo.

Além disso, parcela relevante da produção está concentrada em poucos países e regiões. Entre os principais produtores globais destacam-se: China, Estados Unidos, Canadá e países do Oriente Médio como Arábia Saudita e Qatar.

A concentração geográfica torna o mercado sensível a gargalos logísticos, decisões comerciais e tensões geopolíticas, impactando diretamente o preço do enxofre no mercado internacional. Essa dependência não é diferente com o Brasil, que em 2025 importou aproximadamente 42% do enxofre do Oriente Médio.

importações de enxofre por país

Figura 02: Participação por país nas importações de enxofre do Brasil em 2025 (%). *Outros: Alemanha, China, Coreia do Sul, Kuweit, Espanha, França, Hungria, Índia, Japão, Omã, Polônia, Reino Unido, Turquia. NCMs: 25030010, 25030090. Fonte: Secex / Scot Consultoria

Como o enxofre influencia o custo do DCP?

Considerando que o enxofre é a principal matéria-prima para produção de ácido sulfúrico e este, por sua vez, é essencial na obtenção do ácido fosfórico, o custo do enxofre impacta direta e significativamente o custo final dos fosfatos para nutrição animal.

Para cada tonelada de fosfato bicálcico 19% produzido, utiliza-se de 0,34 a 0,43 toneladas de enxofre no processo, dependendo da pureza da rocha fosfática.

Qual é a relação entre mercado global de enxofre e oferta de fosfatos?

O enxofre apresenta valores elevados devido a uma combinação de alta demanda global e restrita oferta. A Rússia, uma das principais exportadoras do produto, após paralisações em unidades, reduziu produção deixando de atuar como exportadora e passando a importar. Esse movimento gerou um desequilíbrio no mercado global, intensificando a escassez.

Além disso, houve paradas e menor ritmo operacional em unidades de refino, reduzindo a disponibilidade no mercado internacional. Ao mesmo tempo, a demanda permaneceu aquecida na produção de fosfatados e pela expansão industrial, elevando o consumo de ácido sulfúrico.

Em 2026, o conflito envolvendo os Estados Unidos e o Irã intensificou esse movimento de alta, ao impactar diretamente regiões produtoras e o principal eixo logístico do comércio global de enxofre, o Estreito de Ormuz, por onde transita de 30% a 50% do suprimento mundial do produto.

O mercado passou a operar ainda mais pressionado no início de março, quando ocorreu o fechamento do Estreito, que elevou os custos de frete e seguros marítimos, além de aumentar as incertezas quanto à continuidade dos embarques.

Mesmo sem interrupção efetiva da produção, o aumento do risco logístico restringiu a oferta global, com cargas sendo postergadas, redirecionadas ou negociadas com prêmios adicionais ao mesmo tempo em que ocorreu a antecipação de compras para garantir o abastecimento.

Apesar de avanços nas negociações entre EUA e Irã, a oferta de enxofre segue restrita devido à redução das exportações por China e Rússia. Além disso, danos estruturais nas instalações de petróleo e gás no Oriente Médio, principal região produtora global, podem exigir um prazo maior para normalizar os fluxos.

Com isso, a recuperação da oferta deve ser lenta, mantendo o mercado pressionado. Segundo dados levantados pela Expana Inteligência de Mercado, esse cenário levou o preço do enxofre a ultrapassar US$ 1.500/tonelada em maio de 2026.

preços do enxofre

Figura 03: Preços do enxofre industrial, cotados em US$/tonelada, nos últimos seis anos. Fonte: Argus

Por que entender essa relação é estratégico para a nutrição animal?

A base da suplementação da pecuária brasileira é a suplementação mineral e o fosfato como já vimos é o principal ingrediente deste produto.

No curto prazo, um dos principais fatores de risco está relacionado às tensões geopolíticas no Oriente Médio, especialmente envolvendo o Estreito de Ormuz.

Mesmo em um cenário de eventual estabilização geopolítica, o mercado tende a permanecer pressionado no curto e médio prazo, devido a:

  • Danos operacionais em refinarias;
  • Atrasos acumulados em contratos já firmados;
  • Reposição lenta da cadeia logística global.

Outro fator estrutural importante é o aumento da competição pelo uso do enxofre entre diferentes setores industriais:

  • Produção de fertilizantes: Representa o maior consumo global (cerca de 60% da demanda total) principalmente para produção de ácido sulfúrico e fosfatados;
  • Setor químico e farmacêutico: Demanda contínua para produção de compostos orgânicos, detergentes, polímeros e intermediários químicos de alto valor agregado;
  • Mineração e hidrometalúrgia: Uso crescente na lixiviação ácida de minerais;
  • Baterias e nova matriz energética: A transição energética tem impulsionado a demanda por metais como níquel e cobalto, essenciais para baterias de íon-lítio. Esse movimento aumenta indiretamente o consumo de enxofre, uma vez que esses processos dependem fortemente de ácido sulfúrico.

Conclusão

Compreender a dinâmica do enxofre e seus impactos sobre o custo dos fosfatos não apenas amplia a visão técnica sobre o processo produtivo, mas reforça a importância de monitorar a dinâmica de mercado impactado pela geopolítica e ser capaz de mitigar riscos.

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