Longe se vai o tempo das comitivas boiadeiras onde o gado era transportado pelas estradas por peões a cavalo. A pecuária mudou — e muito.
Hoje, a realidade dos deslocamentos é outra, e o transporte de bovinos pelo sistema rodoviário é predominante no Brasil, ocorrendo diariamente por diferentes razões: transferência entre propriedades do mesmo dono, compra e venda de animais, entrada em sistemas de recria ou confinamento e, claro, o destino mais frequente, os frigoríficos.
Apesar de ser uma prática rotineira, o transporte de bovinos — que envolve as etapas de embarque, viagem e desembarque – exige atenção e planejamento. Portanto, precisam basear-se em critérios técnicos para reduzir riscos de acidentes, perdas econômicas e prejuízos ao bem-estar animal.
Mesmo quando realizado em boas condições e por curtas distâncias, o transporte já é suficiente para provocar o estresse nos bovinos. Em situações adversas o estresse se intensifica, aumentando a chance de quedas, contusões, problemas metabólicos e até mortes.
Quando o destino final é o frigorífico, o estresse do transporte tem um efeito direto no metabolismo dos bovinos comprometendo a qualidade da carne e o resultado. Um produto mais escuro, duro e seco, que gera prejuízos para a indústria e frustração para o consumidor final, que irá comprar um produto de qualidade inferior.
Por isso, garantir o bem-estar animal durante o transporte não é apenas uma questão ética, mas também econômica e legal, onde as diretrizes estabelecidas são claras quanto ao manejo e transporte de animais vivos.
Neste texto, vamos abordar as boas práticas no transporte de bovinos, com foco em segurança, bem-estar animal e rentabilidade. Afinal, quando o transporte é bem-feito, ganham os animais, o condutor, o vendedor, o comprador e o consumidor de proteína animal.
Como planejar o transporte de gado de forma segura e eficiente?
O transporte de bovinos começa muito antes do caminhão entrar na fazenda. Planejar corretamente cada etapa é uma medida técnica essencial e não apenas um detalhe operacional.
Quando o transporte é mal planejado — com veículos inadequados, manejo inapropriado, excesso de animais, longas viagens sem paradas ou calor excessivo — os bovinos entram rapidamente em estado de estresse.
Nessas condições, ocorrem respostas fisiológicas importantes como: redução da imunida,de tornando os animais mais suscetíveis a doenças oportunistas, a “febre do transporte” e outras síndromes respiratórias, descritas em bezerros desmamados e em gado magro, causando redução de desempenho e custos extras com tratamento veterinário.
Dicas práticas sobre o transporte de bovinos
Veja algumas dicas práticas sobre planejamento do transporte de bovinos:
Quanto aos animais
O primeiro ponto do planejamento é calcular corretamente a capacidade do caminhão considerando:
- Número de animais no lote;
- Peso médio dos animais;
- Comprimento e número de compartimentos do veículo;
- Características físicas do lote.
Uma prática simples e eficiente é usar o espaço linear por animal, que varia de acordo com o peso vivo. Por exemplo, se os animais têm peso médio de 500 kg, cada bovino necessita, em média, 0,51m lineares no compartimento de carga.
| Peso Vivo (kg) | Espaço linear (m/animal) |
| 250 | 0,33 |
| 300 | 0,37 |
| 350 | 0,41 |
| 400 | 0,44 |
| 450 | 0,47 |
| 500 | 0,51 |
| 550 | 0,54 |
Adaptada de Tseimazides (2006), dissertação de mestrado, Programa de Pós-graduação em Zootecnia, FCAV-UNESP, Jaboticabal-SP
O espaço permitido em superfície (m2) por animal durante o transporte rodoviário, ferroviário ou marítimo deve respeitar, pelo menos, os valores seguintes:

Figura 01: Espaço permitido em superfície (m2) por animal de acordo com PORTARIA SDA/MAPA Nº 1.295, DE 3 DE JUNHO DE 2025 -DOU
Sempre que possível, o embarque deve ser feito com lotes homogêneos em peso e categoria. Animais com chifres demandam mais espaço e exigem distribuição cuidadosa, pois aumentam o risco de ferimentos, contusões e brigas durante a viagem.
Documentação
O transporte de bovinos exige atenção rigorosa à documentação para evitar multas, retenções em fiscalizações e atrasos na entrega dos animais. É importante destacar que cada estado pode ter exigências específicas, portanto o ideal é sempre verificar previamente junto aos órgãos de defesa sanitária locais os documentos necessários.
De forma geral, são exigidos e são responsabilidade da fazenda:
- GTA — Guia de Trânsito Animal (controle do trânsito animal e prevenção da disseminação de doenças);
- Nota fiscal com origem e destino;
- Identificação dos animais;
- Atestados sanitários, quando aplicável
Sob responsabilidade da transportadora e do condutor:
- Documentação do veículo;
- Habilitação do motorista compatível com o transporte realizado.
Planejamento da rota
Escolher bem a rota é uma medida simples que reduz riscos e prejuízos. Sempre que possível, deve-se priorizar estradas em melhores condições, com menor risco de atoleiros e acidentes e menor tempo total de viagem.
A definição de horários adequados também faz diferença, sendo o transporte noturno o mais indicado, pois as temperaturas mais amenas reduzem o estresse térmico e melhoram o conforto dos animais.
Em viagens longas, é indispensável planejar pontos de parada para descanso e hidratação. Animais cansados tendem a se deitar dentro do caminhão e podem ser pisoteados pelos demais, o que aumenta significativamente o risco de lesões graves e até morte.
Quanto aos veículos
O estado do veículo é decisivo para a segurança do transporte e a manutenção preventiva em dia, evita quebras, vibrações excessivas e paradas de emergência.
Quanto à estrutura dos caminhões, alguns pontos técnicos fundamentais:
- O piso dos compartimentos deve ter revestimento antiderrapante, como tapete de borracha e grade metálica quadriculada (aproximadamente 30 x 35 cm) ou cobertura com palha, para reduzir escorregões e quedas;
- Ausência de parafusos salientes, pontas cortantes, grades soltas ou buracos no piso, nas laterais ou nas divisórias;
- Os compartimentos devem estar limpos e livres de objetos estranhos;
- Veículos com laterais e traseira fechadas são bastante utilizados, pois reduzem estímulos visuais externos e evitam sujeira nas rodovias. No entanto, esse tipo de carroceria pode comprometer a ventilação e dificultar a inspeção dos animais durante a viagem, exigindo atenção redobrada ao manejo e à densidade de carga.
Como deve ser o embarque para reduzir estresse?
Um embarque de baixo estresse começa com um manejo pré-transporte bem-feito. Os animais devem permanecer em ambiente com sombra, espaço adequado, piso seguro e água disponível até o momento do embarque.
Antes do transporte, é fundamental realizar uma vistoria cuidadosa das instalações. Corredores, pisos, cercas, paredes, porteiras, troncos e o embarcadouro devem estar em bom estado de conservação e livres de objetos que possam causar distrações ou medo nos animais como cordas soltas, sacos, pedaços de madeira ou sucata.
O caminhão deve estar perfeitamente encostado ao embarcadouro, eliminando vãos e evitando batidas nas costelas, escorregões e o aprisionamento de membros. Caso haja rampa, ela deve ter inclinação suave, com ângulo máximo de 20°.
Já o manejo, precisa ser calmo e silencioso, sem gritos, choques, ferrões ou uso de cães, sempre conduzido por vaqueiros experientes e bem treinados.
É importante respeitar o comportamento natural do animal: o primeiro bovino de cada grupo costuma parar, observar e cheirar o ambiente antes de avançar. Por isso, dar alguns segundos para esse reconhecimento facilita a entrada dos demais.
A responsabilidade pelo embarque é da equipe da fazenda, enquanto cabe ao motorista acomodar corretamente os animais nos compartimentos e operar as porteiras. Após o carregamento, o caminhão deve permanecer alguns minutos parado, de preferência à sombra, permitindo que os animais se acomodem antes do início da viagem.
Cuidados essenciais e boas práticas durante a viagem
Todos os responsáveis pelo transporte de bovinos devem estar treinados e capacitados para proporcionar segurança para si e para os bovinos. Eles precisam se comprometer em entregar os bovinos em boas condições físicas e, para tanto, devem ter cautela com alguns fatores:
- Direção defensiva, com velocidade moderada e constante evitando freadas bruscas, acelerações repentinas e curvas fechadas.
- Evitar ao máximo paradas longas durante o percurso pois aumentam o estresse, a desidratação e o risco de acidentes. Quando a parada for necessária, deve ocorrer preferencialmente em local sombreado e terreno plano. Caso algum bovino esteja deitado, o veículo deve ser parado com segurança para permitir que ele se levante, reduzindo o risco de pisoteamento.
- Em caso de acidente durante o percurso, o transportador precisa comunicar imediatamente o responsável para que sejam tomadas providências como envio de veículo de apoio. Por isso, um plano para casos de acidentes e emergência e os devidos contatos devem estar prontamente disponíveis.
Como realizar um desembarque seguro e sem perdas?
No momento do desembarque, os animais geralmente estão cansados, com sede e diante de um ambiente totalmente desconhecido, o que exige atenção redobrada.
Por isso, o caminhão deve estar perfeitamente alinhado com o desembarcadouro. Em seguida, o desembarque é feito com calma, preferencialmente pelo motorista ou por alguém treinado, abrindo as gaiolas gradualmente e permitindo que os animais visualizem a saída.
As portas da carroceria precisam estar totalmente abertas para evitar contusões e lesões no dorso dos animais durante a passagem.
É importante lembrar que os bovinos têm baixa percepção de profundidade, por isso é normal que o primeiro animal pare, abaixe a cabeça e observe o caminho antes de seguir. Quando o primeiro animal avança, os demais tendem a seguí-lo naturalmente. A rampa de desembarque deve possuir piso antiderrapante.
Durante e após o desembarque, é essencial identificar animais feridos, doentes ou debilitados, que devem receber manejo diferenciado e atendimento veterinário imediato. Em situações mais graves, pode haver bovinos não aptos a desembarcar, exigindo decisões técnicas como abate de emergência, sempre seguindo a legislação vigente e os princípios de bem-estar animal.
Por fim, a limpeza e desinfecção do caminhão devem ser realizadas imediatamente após o desembarque, reduzindo riscos sanitários e preparando o veículo para o próximo transporte.
Engana-se quem pensa que os cuidados acabam quando os animais descem dos caminhões. Após o desembarque, os animais devem passar por tempo de recuperação e descanso antes de seguirem para qualquer outra atividade.
Se o transporte for realizado para os animais entrarem no sistema de confinamento, o ideal é que eles sejam recebidos e conduzidos para uma pastagem como forma de adaptação com água potável e fibra de boa qualidade como feno ou pré-secado para que os animais se recuperem.
O que diz a legislação sobre transporte de gado?
A legislação brasileira estabelece critérios claros e obrigatórios para o transporte de bovinos, tendo como pilares o bem-estar animal, a sanidade, a rastreabilidade e a segurança dos produtos de origem animal.
Essas diretrizes previstas no RIISPOA (Regulamento da Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal) e nas normativas do MAPA (Ministério da Agricultura e Pecuária) determinam exigências como:
- Adequação e conservação dos veículos de transporte;
- Manejo correto dos animais;
- Estado de saúde dos bovinos e pré-abate;
- Documentação obrigatória que deve acompanhar a carga.
| DIRETRIZ | O QUE ESTABELECE |
| Portaria SDA/MAPA 1.295/2025 | Estabelece regras e procedimentos para a proteção e o bem-estar dos animais de produção durante transporte acompanhado de Guia de Trânsito Animal. |
| Portaria 365/2021 | Aprova o Regulamento Técnico de Manejo Pré-abate e Abate Humanitário e os métodos de insensibilização autorizados pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. |
| Decreto 9.013/2017 | Regulamento de Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal |
| Lei 1.283/1950 | Dispõe sobre a inspeção industrial e sanitária dos produtos de origem animal |
O cumprimento dessas normas não se limita ao atendimento legal, mas contribui diretamente para a redução de estresse, lesões, perdas de desempenho produtivo e condenações de carcaças, garantindo a qualidade final da carne e de outros produtos de origem animal.
O não-cumprimento das regras previstas pode resultar em autos de infração, interdição do transporte, retenção de carga ou veículo, advertência e multa. Cumprir a legislação vigente é fundamental, não apenas para evitar penalidades legais, mas para assegurar uma pecuária mais produtiva, sustentável e alinhada às boas práticas de bem-estar animal, refletindo diretamente na eficiência do sistema produtivo e na imagem do setor perante o mercado consumidor.
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