Atualmente, o Brasil possui o maior rebanho comercial de bovinos do mundo, com aproximadamente 238,2 milhões de cabeças, sendo a maior parte criada em sistemas de produção a pasto.
Cerca de 19% do território nacional é ocupado por áreas de pastagens destinadas à produção animal. No caso da bovinocultura de corte, aproximadamente 90% dos animais abatidos são oriundos de sistemas de terminação a pasto, enquanto cerca de 10% são terminados em confinamento. Esses números demonstram a relevância da pecuária de corte no país. Além da expressiva participação no uso da terra e na produção de alimentos, a atividade exerce papel fundamental na economia brasileira.
Em 2025, o Valor Bruto da Produção (VBP) da cadeia de bovinos foi projetado em aproximadamente R$ 203 bilhões, consolidando a bovinocultura de corte como a principal atividade da pecuária nacional e uma das mais importantes do agronegócio brasileiro.
Características da criação de gado de corte
A produção de gado de corte é sustentada por três grandes pilares:
Cada um desses fatores exerce influência direta nos resultados da produção. Entretanto, é a melhoria conjunta desses pilares que proporciona os melhores índices zootécnicos, tanto produtivos quanto reprodutivos.
No caso da nutrição animal, considerada um dos principais custos da atividade após a aquisição dos animais, é importante compreender que ela corresponde ao conjunto de processos pelos quais os alimentos são digeridos e seus nutrientes assimilados. Esses nutrientes serão posteriormente utilizados para crescimento, manutenção, reparação dos tecidos corporais e produção.
Para que a nutrição ocorra de forma adequada, a relação entre a exigência nutricional dos animais e a composição nutricional dos alimentos da dieta deve ser a mais ajustada possível.
A exigência nutricional é definida como a quantidade necessária de determinado nutriente que o animal precisa consumir diariamente para alcançar um nível específico de produção.
Essa exigência serve como referência para a definição da estratégia alimentar, seja por meio de uma simples mineralização em sistemas de produção a pasto, seja por meio de dietas mais complexas em sistemas de terminação em confinamento.
Diversos países já estabeleceram normas nutricionais para seus rebanhos de corte. Essas referências são organizadas em compêndios e tabelas que procuram representar as exigências dos animais de acordo com as características específicas de cada sistema produtivo.
Um dos principais exemplos é o National Research Council (NRC), dos Estados Unidos, responsável por importantes recomendações nutricionais para diferentes categorias animais.
Outros países que também desenvolveram tabelas de referência para seus sistemas de alimentação foram a França, por meio do Institut National de la Recherche Agronomique (INRA), a Austrália, por meio do Commonwealth Scientific and Industrial Research Organisation (CSIRO), e o Reino Unido, por meio do Agricultural and Food Research Council (AFRC).
Nutrição de bovinos de corte no Brasil
Durante muitos anos, as recomendações do NRC foram amplamente utilizadas na formulação de dietas para bovinos de corte no Brasil. Entretanto, características peculiares do país, como a diversidade climática dos biomas, a predominância dos sistemas de produção a pasto e a elevada participação de raças zebuínas, evidenciaram a necessidade de desenvolver tabelas nutricionais mais adequadas à realidade nacional.
Nesse contexto, professores e estudantes de pós-graduação do Departamento de Zootecnia da Universidade Federal de Viçosa realizaram diversos experimentos com o objetivo de reunir informações sobre as exigências nutricionais de bovinos zebuínos.
Dessa iniciativa surgiu a tabela brasileira de exigências nutricionais denominada Exigências Nutricionais de Zebuínos Puros e Cruzados (BR-Corte), atualmente em sua 4ª edição.
Embora o BR-Corte esteja disponível atualmente em plataforma digital com acesso via web e aplicativo, muitos técnicos, consultores e pecuaristas ainda utilizam as versões anteriores, impressas ou em formato PDF. Essas edições reúnem tabelas de exigências de energia, proteína e minerais para bovinos machos e fêmeas (vazias, gestantes e lactantes), além das exigências minerais para bezerros lactentes.
Consultando uma tabela de exigência nutricional para gado de corte
Sabendo que a exigência nutricional do gado de corte é composta pela soma das exigências de mantença e produção, é possível determinar as necessidades de nutrientes para cada objetivo de ganho de peso dos animais.
As Tabelas 1 e 2 apresentam uma adaptação das tabelas de exigência de proteína bruta (PB) e nutrientes digestíveis totais (NDT) do BR-Corte (3ª edição). A consulta é realizada pela relação entre as linhas, que representam o ganho de peso desejado, e as colunas, que representam o peso corporal do animal.
Tabela 1 – Exigências de proteína bruta para zebuínos machos não castrados, pesos corporais e taxas de ganho de peso

Adotando-se como exemplo um boi da raça Nelore (raça zebuína), em condição de pastejo, pesando em média 300 kg e com um ganho de peso diário esperado de 1,0 kg, temos que esse animal precisará consumir aproximadamente 801 g de PB por dia para alcançar o desempenho esperado.
Vale ressaltar que para o ideal balanceamento da dieta, todos os outros componentes deverão ser considerados de forma conjunta, tal como a exigência de energia (Tabela 2) e de minerais deste mesmo animal (300 kg) para este mesmo ganho diário esperado (1,0 kg).
Tabela 2 – Exigências de energia em nutrientes digestíveis totais para zebuínos machos não castrados, pesos corporais e taxas de ganho de peso

Da mesma forma, considerando um bovino Nelore em pastejo, com 300 kg de peso corporal e expectativa de ganho diário de 1,0 kg, verifica-se a necessidade de aproximadamente 4,36 kg de NDT por dia para alcançar o desempenho esperado.
Com base nas exigências nutricionais dos animais e na composição dos ingredientes disponíveis, o nutricionista realiza o balanceamento da dieta para atender à meta de ganho médio diário estabelecida pelo produtor.
Em relação à composição dos alimentos, destaca-se que a utilização de informações geradas em condições brasileiras e com ingredientes amplamente utilizados no país contribui significativamente para a otimização das dietas e para o aumento da eficiência produtiva.
Conclusão
O conhecimento e a utilização das tabelas de exigência nutricional para gado de corte são fundamentais para o adequado balanceamento das dietas. Quando utilizadas corretamente, essas ferramentas contribuem para a melhoria do desempenho produtivo dos animais, especialmente quando associadas a boas práticas de manejo e genética.
Embora as tabelas apresentem elevada aplicabilidade prática, a formulação de dietas deve ser conduzida por profissionais capacitados em nutrição de ruminantes. Esse direcionamento reduz a possibilidade de erros e aumenta as chances de sucesso produtivo.
FAQ tabela de exigência nutricional para gado de corte
Confira a lista de perguntas frequentes sobre a tabela de exigência nutricional para gado de corte:
Dois animais com o mesmo peso podem ter exigências nutricionais diferentes?
Sim. Embora o peso seja um dos fatores considerados na tabela de exigência nutricional, características como genética, sexo, idade, condição corporal e potencial de ganho de peso também influenciam as necessidades do animal. Por isso, bovinos com o mesmo peso podem demandar quantidades diferentes de nutrientes para manter o desempenho esperado.
Como a qualidade da pastagem influencia a interpretação da tabela de exigência nutricional?
A tabela indica quanto o animal precisa consumir, mas não considera, por si só, o valor nutritivo da forragem disponível. Se a pastagem apresenta baixa qualidade ou reduzida disponibilidade de nutrientes, pode ser necessário complementar a dieta com suplementos para atender às exigências do rebanho e evitar perdas de desempenho.
Por que alguns lotes não atingem o ganho de peso esperado mesmo seguindo as recomendações nutricionais?
Diversos fatores podem interferir nos resultados obtidos, como consumo insuficiente de matéria seca, desafios sanitários, estresse térmico, qualidade irregular dos ingredientes da dieta e falhas de manejo. Por isso, a tabela deve ser utilizada como referência dentro de um planejamento nutricional mais amplo.
O que acontece quando a dieta fornece energia suficiente, mas apresenta deficiência de proteína?
A proteína desempenha papel fundamental no crescimento, na formação muscular e no aproveitamento dos nutrientes pelos microrganismos ruminais. Quando há deficiência proteica, o ganho de peso pode ser reduzido, mesmo que a oferta de energia seja adequada, comprometendo a eficiência produtiva do sistema.
Como períodos de seca ou estresse térmico afetam as exigências nutricionais dos bovinos de corte?
Durante a seca, a qualidade e a disponibilidade da forragem tendem a diminuir, aumentando o risco de déficits nutricionais. Já o estresse térmico pode reduzir o consumo de alimento e alterar o metabolismo dos animais. Nesses cenários, ajustes na estratégia nutricional são importantes para minimizar impactos sobre o desempenho e a produtividade do rebanho.

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